O OLHAR NO TEMPO: LEITURAS DE FIDELINO DE
FIGUEIREDO SOBRE A AMÉRICA
Irene Jeanete L. Gilberto - UNESP-Assis/Univ. Católica de Santos
Autor de uma significativa obra consagrada aos estudos literários, a trajetória de Fidelino de Figueiredo foi marcada por dois compromissos, conforme nos lembra Carlos de Assis Pereira, no Prefácio de Ideário Crítico2: a organização de um método crítico que desse objetividade e validez ao exercício da crítica e sua conseqüente aplicação à história da literatura portuguesa.
Para Carlos de Assis Pereira3, o redimensionamento da crítica em relação aos estudos literários possibilita articular a obra de Fidelino de Figueiredo à zona mais alta da crítica literária do século XX, com repercussões e influências dentro e fora das fronteiras do mundo da língua portuguesa.
Nos seus escritos, pode-se observar a forma como analisa as questões literárias, procurando entendê-las dentro de uma visão mais ampla e, sob esse aspecto, seus textos sobre a América oferecem a visão de um olhar crítico atualizado, cujo interesse ilumina zonas às vezes esquecidas e revela-se um tipo de discurso que abole as fronteiras entre o relato e a História. O percurso do historiador pauta-se na polifonia de temas e constrói, na escrita, um espaço onde se estabelece a relação entre o "eu" e o objeto da procura, conforme se pode ler no Prefácio de Últimas Aventuras4:
Grandes extensões e grandes temas engodaram a minha curiosidade: a selva negaceadora da história literária dum povo multissecular; a esfinge espanhola e seus segredos; os problemas gerais da crítica ou a filosofia da literatura; a atual crise das idéias do homem sobre o homem.
Em meio destas incursões numerosas, houve seus desvios momentâneos, melancolias de soledade que tentaram expressar-se em formas emotivas ou menos austeras, nalguns monólogos quase novelados ou "nivolas", como chamava Unamuno a esses escritos híbridos. E foi tudo. E foi o bastante para encher uma pobre vida".
No discurso crítico de Fidelino de Figueiredo, objetividade e subjetividade complementam-se, pois o espaço da subjetividade na linguagem oferece-se como o lugar do entrediscurso, onde se presentificam mecanismos discursivos da relação com o outro.
A maioria dos textos sobre o novo continente foram publicados em Estudos da História Americana5. No entanto, o tema atrai o crítico e um simples olhar sobre sua vasta obra é capaz de detectar o interesse do autor pelo processo cultural da América. Em Últimas Aventuras6, o autor adverte sobre a importância do olhar diferenciado na comparação entre os continentes europeu e americano, pois ainda que a metodologia do trabalho historiográfico seja a mesma na Europa e na América e ofereça análogas dificuldades, diverge profundamente quanto à extensão e oportunidade ao seu alcance social.
Na IV parte da referida obra, intitulada Duas historiografias7, o crítico faz um paralelo entre historiadores do outro lado do Atlântico e afirma que o caráter excêntrico ou marginal da historiografia americana permitiu-lhe ver muito cedo algo que fora ofuscado na Europa: o amplo papel desempenhado pela vida anônima e coletiva, pelo povo. Afirma o autor:
"Os europeus, principalmente nos chamados "países históricos", parecem saturados de tempo, budicamente cansados de experiência. A história, do meu lado do Atlântico, é por vezes uma bisantina curiosidade intelectual, um revolver voluptuoso de tesouros amontoados e sem emprego.
Do lado americano, a história é ainda um fator dinâmico, criador de vida, organizador de ação social. (...) Longe das metrópoles e das suas lentas administrações, os domínios americanos viveram muito cedo de seus recursos de inteligência e ação e sentiram bem cedo a diferenciação que sobre os homens determinava o novo cenário.
Fazer história, aqui, tem sido criar uma alma americana pela explicação das peculiaridades dos factos e com aqueles materiais esquecidos ou relegados a segundo plano pelos historiadores das metrópoles, que naturalmente fizeram convergir as suas atenções para o primeiro plano europeu e para os grandes autores do drama.” 8
Seu modo de ver identifica-o ao historiador moderno que, segundo Bosi (1956: 139), desejaria ir mais a fundo, isto é, estudar e conhecer as motivações internas, a sensibilidade; tudo quanto faz com que o ser humano seja essa coisa plástica, imprevisível, que a historiografia sociológica e a historiografia economicista reduziram a parâmetros".
Benedetti (1979: 363) refere-se ao descompasso entre a literatura européia e a latino-americana, cujo desenvolvimento não poderia ser comparado à primeira e que teve, por isso mesmo, que desenhar seu próprio traçado, pois "não poderia repetir o processo natural da autoformatação que outras literaturas do mundo haviam seguido".
Ainda seguindo o pensamento de Benedetti, este revela que um dos atrativos paradoxais da literatura latino-americana foi precisamente o atraso: a imitação do classicismo e do romantismo europeu não condizia com o "indigenismo balbuciante", cujo atraso tinha pouco a ver com o europeu e muito com a exigente e desprezada realidade do continente.
Somente o modernismo, no dizer de Benedetti9, trouxe algum progresso à literatura latino-americana, pois foram os modernistas os primeiros a vislumbrar que um dos possíveis modos de enraizamento nesta encruzilhada de rumos consistia em fixar o desenraizamento. Ao confrontar a situação vivida pelo o escritor europeu e aquela vivida por seu colega latino americano, Benedetti conclui que o escritor latino-americano está em plena fabricação do legado cultural.
Na visão de Fidelino de Figueiredo, os povos de América foram sempre empreendedores. Segundo ele, a desarticulação do norte da Europa coincide com uma fecunda operosidade no Brasil, na fundação de cidades, exploração de selvas e minas, proporcionando-se amplo quadro de atividade a gentes cultivadas, que não cabiam na atmosfera metropolitana.
Há que se destacar, também, a importância dada pelo autor aos critérios diferenciados no confronto América/Europa. Em Epicurismos (1924: 99), afirma ser a América "uma das grandes esperanças do mundo, frágua imensa em que se caldeiam as velhas civilizações, com elementos novos e poderosos, cuja resultante final não se concebe..."
Esse desejo de conhecer a fundo as diferenças entre os dois continentes, leva o autor ao confronto das culturas e chega a afirmar que foi durante os séculos XVII e XVIII, período que o crítico define como “uma sonolenta imobilidade de espírito”, que o continente americano desenvolveu-se, conforme se lê em Epicurismos (1924: 329): “suas colônias americanas agitavam-se com vigor, cresciam em personalidade, resistiam aos assaltos dos holandeses, franceses e ingleses, dominavam a população indígena, pesquisavam minas, devassavam os rios, os desertos e as florestas e criavam a América portuguesa e a América espanhola”.
No texto intitulado "Os ingleses no Rio da Prata (1806-1807). Notícia e impressão dos sucessos no Brasil – discurso de posse na Academia Nacional de História, de Buenos Aires"10, Fidelino de Figueiredo constrói a imagem canhestra do colonizador em confronto com a grandeza da América.
A América oferece-me a sensação exatamente oposta, a de um mundo que numa noite assumisse também proporções imprevisivelmente maiores, mas com o qual se estivesse de defrontar a minha velha estatura européia de homúnculo de país histórico, pequeno fragmento dum continente cansado, dividido em páteos prisionais de altos muros, sobrepovoado por gente inquieta, a gritar numa babel de língua, a bulhar por pequenos interesses, migalhas de pão e geiras de terra, temendo ou desobedecendo a guardas arbitrários que improvisam falsas disciplinas.
As imagens com que o crítico português constrói o contraste entre continentes dão uma dimensão de seu sentimento “americanófilo”, expressão usada em seus ensaios.
Para nós, estudiosos da história literária de América, é fundamental o resgate de autores que aqui viveram e que escreveram sobre o novo continente. Nesse percurso em busca de trazer à tona os nomes apagados pela história oficial, Fidelino de Figueiredo deixa clara a importância de se conhecer tais estudiosos para que se tenha um retrato mais preciso da contribuição desses autores. Entre eles, Alexandre Rodrigues Ferreira, que, no dizer do autor foi "mal estimado e quase abandonado romeiro, e que foi, no sertão sul-americano uma espécie de Humboldt brasílico" 11.
Entre outros autores mencionados pelo crítico português, pode-se citar um estudo sobre o americanismo de Gomes de Amorim e outro sobre Oliveira Lima, especificamente a conferência pronunciada sobre a infiltração do pensamento europeu na literatura brasileira, durante o primeiro século da sua independência.
Fidelino de Figueiredo revela que aos dez anos, Gomes de Amorim veio para o Brasil e, nas suas deambulações, encontrou na casa de uma família um exemplar de Camões de Almeida Garrett, a História de Carlos Magno e os 12 pares de França, assim como um exemplar de Os Lusíadas de Camões. Embora tenha retornado a Portugal, "o Brasil não se lhe apagou da memória, antes transfigurado e espiritualizado pela saudade, como estas inscrições na casca das árvores que se deformam e as acompanham no crescimento, foi um tema grato para a sua imaginação literária."
Embora pequena, a produção poética de Gomes de Amorim é, no dizer de Fidelino de Figueiredo, fundamental para se compreender o espírito americano. O poeta escreveu onze poesias de extensão vária "em que diz o seu deslumbramento das belezas amazônicas e o contraste surpreendente delas com o jardim pequenino, mineirinho e humano da sua província".
Segundo o autor de Últimas Aventuras, a poesia marítima de Amorim tem importância como documento histórico e, dentro deste critério de relatividade e fazendo sobressair a sua inspiração marítima e brasílica, o poeta citado deveria ser lembrado pela história literária e prezado pelos leitores do Brasil.
Outro autor elencado é Gouvêia de Almeida, que é visto como um dos embaixadores da América. O crítico português lembra que, embora o autor tenha desempenhado altos cargos em Portugal e desfrutado de grande conceito na corte, seu nome não é citado em nenhuma enciclopédia ou dicionário biográficos e bibliográficos de Portugal e Brasil.
Fidelino de Figueiredo, no rastro do registro histórico dessas personalidades, afirma que Gouvêia de Almeida escreveu um retrato expressivo do gaúcho, sem a auréola que o romantismo e o americanismo lhe trariam posteriormente. Escreve sobre o estudioso:
É talvez o primeiro retrato do gaúcho em língua portuguesa. Se lhe aponta muitos traços negativos, com um só resgata esse rol, porque é virtude que dita raízes nos defeitos: a sua incomparável condição primeira12.
Na visão de Fidelino de Figueiredo, a variedade de pontos de vista, de objetivos e de temperamentos tem de fundir-se numa indispensável uniformidade: a América, para ser compreendida e amada, há de ser vista por um critério americano. E conclui:
critério americano chamo eu a isenção de preconceitos europeus que podem levar o espírito a só procurar no mundo de Colombo, Corte Real e Cabral, semelhanças, e a desdenhar as diferenças. Critério americano chamo eu à falta de indulgência para bem admirar a construção febril dos povos que tarde chegaram e, de assalto, galgam aos últimos progressos, e para relevar a debilidade de alguns materiais dessa assim mesmo prodigiosa arquitetônica13.
Oliveira Lima também é mencionado nos estudos críticos de Fidelino de Figueiredo, para quem o autor de Pernambuco, seu desenvolvimento histórico possui "privilegiada organização de historiador, duma complexidade riquíssima, porque a par da síntese histórica dirime pequenos problemas em artigos e brochuras, cataloga os manuscritos do Museu britânico respeitantes ao Brasil e ergue-se a vastas concepções que revelam uma capacidade filosófica bem rara, mas que têm o hábito de análise miúda e exaustiva"14.
Nos estudos de Fidelino de Figueiredo sobre a América, o maior peso recai sobre a questão histórica e o resgate de fontes importantes para a análise do processo cultural do novo continente. Em Epicurismos (1924:103), afirma:
Sinto-me feliz por verificar e fazer aqui ver toda a operosidade da inteligência brasileira, não a improvisar, mas a continuar uma cultura velha e a elaborar com segurança um matiz novo. E na poesia, no romance, no teatro, nos estudos históricos, na crítica literária e artística, na literatura de viagens, na filosofia, na oratória, nas questões sociais e no jornalismo, toda uma floração se ostenta, obra a um tempo das gerações velhas, dos "consagrados" e dos moços que chegam a toda a hora.
Por outro lado, assinala a importância de estudar-se a influência da literatura brasileira sobre a européia. E complementa:
Haverá naturalmente um grande desequilíbrio nas proporções destas influências de sentido contrário, mas a sua comparação servirá um dia para medir os progressos da mentalidade brasileira, absorvendo, concentrando, assimilando e reexpedindo, em fases sucessivas (p.105).
Para o crítico, seria proveitoso ensinamento seguir a marcha dos estudos históricos e literários do Brasil colonial na historiografia lusitana, pois
o inventário da expressão literária duns e doutros seria material apreciável para a história dos juízos portugueses sobre as coisas e as pessoas do Brasil, os quais foram sempre mais compreensivos, mais justos e variados que os de Camillo e Sampaio Bueno.
Fidelino de Figueiredo faz menção às críticas de Camilo Castelo Branco sobre a poesia romântica brasileira, publicadas no Cancioneiro Alegre de poetas portugueses e brasileiros, afirmando que faltara ao grande romancista o critério americano para apreciar a América.
Sobre a crítica de Camilo Castelo Branco feita à poesia dos românticos brasileiros, escreve Fidelino em Camilo- crítico literário(1924: 281):
Homem de gosto e faro, pôde levantar ou só sugerir idéias gerais, não se ergueu a juízos de conjunto ou delineamento de características. Pelo contrário, às vezes aponta pormenores mínimos em obras vastas, cuja individualidade não pôde aperceber por falta de visão crítica, como aqueles espíritos ingênuos que numa arquitetura poderosa só notam a aldrava quebrada, os florões mutilados.
E complementa:
As desfigurações estranhas que a civilização européia sofreu ao ser transplantada para o outro lado do Atlântico chocaram aqueles altos espíritos, nesse aspecto da sua sensibilidade semelhantes às crianças que ingenuamente se riem dos retratos de família que ostentam trajes e cenários desabituados.
O interesse de Fidelino de Figueiredo pelo Brasil permite-lhe sugerir a possibilidade de incluir, na cadeira de literatura portuguesa, um espaço para a cultura literária do Brasil colonial. Chama a atenção, também, para a necessidade de estudar-se, em Filologia, as contribuições lingüísticas brasileiras, para que as gerações escolares “fossem educadas no apreço e na refletida amizade desse país”.
Produzidos nas primeiras décadas do século XX, os estudos críticos de Fidelino de Figueiredo sobre a América revelam o olhar que procura contrastar traços definidores de cada nacionalidade e também preservar os traços culturais do novo continente.
Lembrando o texto de Benedetti, citado no início deste trabalho, observa-se que o autor faz uma análise das leituras feitas sobre o novo continente, ao observar que
Da Europa e dos Estados Unidos é freqüente uma avaliação da América Latina como uma grande reserva de folclore, como uma vistosa e pitoresca geografia humana, mas também como um todo mais ou menos homogêneo, apenas com diferentes matizes, que de certa forma podem equivaler aos diferentes traços provinciais de uma só nação1.
Antepondo essa visão às questões apresentadas por Fidelino de Figueiredo em seus ensaios, observa-se uma preocupação em revisar a importância dada pelos historiadores a autores e estudiosos das coisas do Brasil. Conclui assim que, embora no Brasil não se tenha desligado do movimento da cultura européia, “com uma simpatia assimiladora e um criticismo cauteloso, seguiu também nobres aspirações de cosmopolitismo, de idéias gerais e de humanidade”.
Referências Bibliográficas:
ASSIS PEREIRA, Carlos de. Prefácio. In Ideário Crítico de Fidelino de Figueiredo. São Paulo. Publicação da faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, 1962.
BENEDETTI, Mario. Temas e problemas. In América Latina em sua Literatura. São Paulo: Perspectiva, 1979.
CHIAPPINI, Ligia e AGUIAR, Flavio Woof de. (Org.) Literatura e História da América Latina. São Paulo: Edusp, 1997.
FIGUEIREDO, Fidelino de. Últimas Aventuras. Rio de Janeiro: Empresa A Noite, 1937.
_____. Epicurismos. Lisboa: Imprensa Literária Fluminense Ltda, 1924.
_____. Estudos de História Americana. São Paulo: Melhoramentos, s.d.
2 ASSIS PEREIRA, Carlos de. Prefácio. In Ideário Crítico de Fidelino de Figueiredo, 1962, p.9.
3 ASSIS PEREIRA, Carlos de. Op. Cit., p. 10.
4 FIDELINO DE FIGUEIREDO. Últimas Aventuras, p. 6.
5 FIDELINO DE FIGUEIREDO. Estudos da História Americana, 1929.
6 FIDELINO DE FIGUEIREDO. Últimas Aventuras, p. 361.
7 Idem pp.361-362.
8 Idem, p. 362.
9 BENEDETTI, Mário. Temas e problemas. In América Latina em sua literatura, p. 364.
10 In Últimas Aventuras, pp. 327-360.
11 In Últimas Aventuras, p. 330.
12 Idem, p.358.
13 Idem, p. 99.
14 Idem, p.358.
15 BENEDETTI, 1979, p. 364.